Saturday, February 23, 2013

ALDRABICES DO LOUREIRO



O senhor general Loureiro dos Santos, pessoa de que me habituei a louvar a moderação, ponderação, bom senso e, até onde posso avaliar, alguma sabedoria no modo de encarar o papel das FA's na sociedade.

Mas ontem o homem excedeu-se e, aproveitando estar de alforria, como militar reformado, atacou o Governo de forma canhestra e ... aldrabona.
 
Que disse sua excelência? Simplesmente esta aleivosia:
 
Assim como um General que não alcança os objetivos é demitido, o Governo tem que assumir a responsabilidade de ter falhado as suas metas e deve demitir-se.
  
Compreende-se: neste momento o Governo está na mó de baixo, a esquerda na mó de cima, o senhor general não podia perder a oportunidade de fazer pilhéria e faturar nos media, antes da jantarada do ranchinho dos sentados à mangedoura do OGE, como se lhes referia, e muito bem, o pai do Miguel Sousa Tavares.
 
Acontece que o senhor general está marreco de saber que estava a dizer uma bacorada: a história recente (e antiga) está cheia de exemplos de generais derrrotados ou que não conseguem vencer o seu IN, ou que deixam uma situação no terreno pior do que a que encontraram e não são demitidos, punidos, processados.Às vezes até são promovidos...
 
O nosso arquigeneral, o homem da prosápia e do pingalim (o Spinola), esteve na Guiné 5 anos a tentar ganhar a guerra (ou ao menos, sair numa situação airosa) e, afinal, cedeu ao IN toda a parte sul da Guiné permitindo (ou sendo obrigado...) que IN declarasse a independência com base nesse território "libertado", no que foi reconhecido por metade dos países com assento na ONU.
 
Essa cedência não lhe deu mais força no restante teatro de operações e, quando foi "rendido" por Bettencourt Rodrigues, até a nossa superioridade aérea o PAIGC tinha eliminado e estava a um passo de nos escorraçar da Guiné.
 
Spínola, entretanto promovido a general (era brigadeiro no início da sua "campanha") recebeu mais uma estrela, a quarta, e ocupou o cargo de vice chefe do estado maior general das FA's, cargo novinho em folha, criado especialmente para ele.
 
Mas não é só por cá que a coisa funciona assim, e não como o Loureiro afirma. Dois casos:
 
Rommel escovado que foi do norte de África, foi feito Marechal de Campo e recebeu um dos principais comandos militares do Reich - comandante da frente Oeste, responsável pela "muralha do Atlântico".
 
Douglas Mac Arthur, depois de os States terem sido apanhados de surpresa em Pearl Harbor, foi apanhado de surpresa nas Filipinas totalmente impreparadas para a invasão japonesa. Retirou com o rabo entre as penas mas não foi demitido e teve a oportunidade de ir subindo na hierarquia até general de 5 estrelas. Só caíu quando Truman, o Presidente das decisões difíceis (e acertadas...) o demitiu do comando chefe das forças ocidentais na Coreia (por "política independente" da do Presidente).
 
É muito feio o senhor General dizer aldabices convenientes à sua retórica do momento, confiante em que o pagode "come e cala" porque não percebe nada do assunto.

De que, pensará ele, só a tropa percebe...

3 comments:

Gil said...

O autor confunde vitórias com objectivos, o que é compreensível para quem não percebe nada sobre o que está a falar. Nem sempre é possível ganhar uma batalha ou uma guerra e o objectivo por vezes é apenas dar tempo a que outras soluções possam ser negociadas. Ou seja, um General derrotado pode ser extremamente competente, até mesmo um heroí!
Quanto ao que mais deveria interessar, o teor da afirmação do General, se ele disse o que afirma o autor, fê-lo na qualidade de cidadão e não com General em funções pois não as tem. O facto de o General ter um passado notável apenas associa às suas afirmações um peso e um impacto diferentes dos de um cidadão comum. Para terminar, o autor tem todo o direito de discordar das afirmações proferidas e de considerar que quem as fez tem falta de legitimidade para o fazer.

Luiz Leite said...

Assino por baixo ....o teu comentário Zé .

Marques Correia said...

Gil, a legitimidade para opinar, minha, sua, do Luiz ou ou do general não estão em causa.
O objetivo que o governo de Marcelo Caetano visava (e o de Salazar, antes dele) era mesmo a vitória sobre os "bandoleiros" que do exterior dirigiam contra nós ações violentas.
Sendo a vitória o objetivo, é óbvio que na Guiné e em Moçambique esse objetivo não foi atingido.
O meu amigo confunde os objetivos das NT com o que Spínola defendeu no seu livro de que o objetivo deveria ser ganhar tempo para que o Governo pudesse encontrar a tal solução política.
Só que o objetivo do Governo de Caetano não era esse.
Não use o "argumento" da ignorância - é deselegante e costuma virar-se contra quem o usa...