O rapaz Geldof, com toda a autoridade moral que lhe dá o seu estatuto de bonzinho, resolveu aproveitar as luzes da ribalta acesas sobre o seu toutiço, no Pestana Palace, para descarregar um chorrilho de acusações tolas sobre "os governantes criminosos de Angola", sobre as casas em construção ao longo da costa de Luanda, as mais caras do mundo, segundo ele, mais caras que em Chelsea, "mais caras que um terreno de 1200m2" (esta unidade de preço desconsertou-me, confesso).
O rapaz não sabe, nem lhe deve interessar, que "este governo de criminosos" conduziu o país durante décadas de guerra alimentada pelas mentes bem pensantes deste mundo que viam em Savimbi uma luminária dos direitos humanos, o homem capaz de dar aos angolanos a "paz e o progresso" a que teriam direito.
Mas, enquanto a sua hora não chegava, o "ocidente" ia-lhe dando armas para ele, metodicamente, ir destruindo o país (pontes, estradas, centrais electricas, rede de alta tensão, institutos de investigação (um,pelo menos) etc, etc, etc, etc, etc). Por seu lado, "o governo de criminosos" era sujeito a um embargo de armas e de tudo o que pudesse ajudar ao esforço de guerra, obrigando-o a comprar a pronto, mais caro e em cash tudo o que necessitava para combater as tropas de Savimbi, ainda por cima encostado à querida aliada África do Sul (a do apartheid, não a de Mandela). Como dizem os franceses, qui se ressamble, s'assemble...
O poder e a riqueza dos generais enviados em missões de aquisição com malas de dinheiro (o tal cash...), como não podia deixar de ser, empolou a olhos vistos...
Como andei a dizer e escrever durante anos e anos, a solução para a guerra era matar Savimbi, tout court, pois a UNITA nunca foi mais que uma coutada sua, criada à sua imagem e semelhança, sistematicamente "desbastada" de todos os que pudessem fazer sombra ao Muata. Matá-lo pouparia anos e anos e guerra, mortes e destruição.
Mesmo perdendo as eleições, controladas pela ONU, com a falecida Margaret Anstee à frente, o velho cabrão persistiu na guerra, numa posição muito melhor que antes das eleições pois usou o processo eleitoral para expandir os seus domínios, espalhando as suas tropas por todo o território. Recordem-se gentes!
Morto o velho filho de puta, a guerra acabou na hora (eu não fálei?!) e a UNITA remeteu-se, finalmente, à dimensão e função de partido político.
Nestes poucos anos desde a morte daquele que arde (certamente) nas profundas do inferno, Angola transfigurou-se: pagou a dívida externa (creio que toda), reconstruiu grande parte das estradas (os orçamentos dos chineses eram muito inferiores aos das empresas portuguesas e francesas...), está em vias de concluir o restauro dos caminhos de ferro, grande parte das escolas e hospitais estão ou estiveram já em reconstrução ou beneficiação, a agricultura e a indústria estão, mais lentamente, a recuperar, uma classe média de empresários cheios de iniciativa desponta e prospera criando riqueza e emprego. O PIB cresce consistentemente a taxas de dois dígitos, na casa dos 20%, e, o que é melhor, só cerca de 50% desse crescimento tem raíz no petróleo!
Claro que o modelo "capitalista" não agrada à rapaziada de esquerda, que continua a sonhar com o "socialismo africano", que tão bons resultados tem dado ... (raio, não me lembro onde!), e descarrega a sua frustração sobre a "cleptocracia" ou o "governo de criminosos", como o pateta do antigo músico, agora rapaz bonzinho prefere chamar.
Ah! os antigos retornados vêem este desenvolvimento com um genuíno despeito: pudera, estavam à espera que, depois da guerra, o governo angolano "os chamasse" para ajudarem a por a economia nos eixos, que eles não conseguiam, sem essa preciosa ajuda...
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Há quem viva no mundo da Lua e vive infeliz, ainda por cima...