Os briosos rapazes da Brigada de Trânsito da GNR resolveram mandar parar uma ambulância que seguia velozmente por uma autoestrada do norte com dois doentes a bordo.
Estou mesmo a imaginar a cena:
- Facultava-me os seus documentos e os da viatura, por favor? - palavras ditas enquanto batia uma pala indolente.
- Ó sô guarda, olhe que levo dois doentes muito mal para as urgências de ... (não se percebeu o nome da terreola).
- A lei é igual p'ra todos, nem prós ministros a gente devia abrir excepções. - Olha calmamente os documentos, dá a volta à viatura para ver se está tudo nos conformes, vai ao párabrisas a ver se os selos estão ok, volta para o motorista.
- Faça o favor de se apear p'ra soprar no balãozinho.
- Ok, sr guarda, mas olhe que aqueles desgraçados ainda esticam, com este atraso todo, 'tou a avisar... (soprou, soprou)
- Você está mas é a ver se se balda, e já me estragou este coiso. Toca a soprar num novo e veja lá se sopra tudo o que tem nos pulmões.
Novas sopredelas, mais longas e compenetradas. O cívico olha o aparelhómetro, dá-lhe umas pancadinhas com as costas do indicador, e resmunga:
- Bom isto deve estar avariado, não passa do zero nem à porrada. Vá lá à sua vida, e veja se anda com juízo, ouviu? Olhe que eu o trago debaixo d'olho!
A ambulância lá seguiu o seu caminho, mas o certo é que um dos evacuados baicou uma hora depois de chegar ao hospital.
A demora pelo caminho terá influenciado o desfecho? Se calhar, não.
Mas a verdade é que não lembra ao menino Jesus que uma ambulância seja mandada parar quando segue sinalizando a sua função, com um desgraçado (dois, neste caso) a bordo.
Não bastaria tirar a matrícula e averiguar junto do INEM se a dita ia mesmo em serviço de urgência ou se o condutor ia com pressa para se encontrar com a namorada?
Ou o esforçado agente estaria em greve de zelo?
Marques Correia

Fátima, altar do mundo, é nestes tempos que vão correndo uma espécie de sede do NÃO, com sucursais em cada igreja, em cada paróquia, em cada sacristia.
No debate dos prós e contras, tal como num outro em que participei na semana passada, algumas pessoas insistiram em ares enfatuados e frases patetas do género "isto é muito sério!", "não devemos fazer humor com isto" e outras tonterias de malta sisuda, que se leva imensamente a sério.
A rapaziada do NÃO fala de bébé, de filho, de criança quando se refere ao feto, não saindo do que considera a defesa da vida. Contudo, muitos deles, o dr Aguiar Branco, por exemplo, aceitam tranquilamente o aborto no seguimento de violação. Outros aceitam, nas calmas, que em caso de perigo de vida para a mulher ou malformação do feto, se faça o aborto.
O SIM quase só fala da mulher, insiste na protecção à mulher, na criação de condições seguras caso queira abortar, mas recusa pronunciar-se sobre o significado de matar o feto (é terminar uma vida? desde quando é que será crime? etc). Mantém-se, no fundo, fiel à linha histórica, ao modo como a questão surgiu, precisamente para fazer face ao aborto clandestino, feito por vizinhas mais ou menos bruxas ou parteiras, como método de contracepção, com taxas de mortalidade consideráveis.


